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Era uma vez um homem cuja esposa estava muito doente. Quando ela sentiu que seu fim se aproximava, chamou sua única filha e lhe disse: – Filha querida, sê boa e piedosa que
Deus cuidará de ti. Eu também olharei por ti lá do céu e estarei sempre contigo.
E então ela fechou os olhos e morreu. A menina ia todos os dias visitar o túmulo da mãe e
chorar sua morte, e foi sempre boa e piedosa. Quando o inverno chegou, a neve cobriu o
túmulo com um manto branco, e no início da primavera o sol derreteu-a e o homem se
casou de novo. A nova esposa trouxe com ela duas filhas, e elas eram lindas por fora mas
feias por dentro. E assim começou uma época difícil para a pobre órfã. As irmãs lhe tiraram
seus lindos vestidos e fizeram-na usar um avental cinzento e velho, além de um tamanco
de madeira.
– Vejam agora como ficou bonita a orgulhosa princesa – elas exclamaram, rindo, antes de
mandá-la para a cozinha. Ali era foi obrigada a fazer trabalhos pesados de manhã até a
noite, acordar cedo, pegar água, acender o fogo, cozinhar e lavar. Além disso, as irmãs
faziam de tudo para atormentá-la. Zombavam dela, espalhavam ervilhas e lentilhas entre as
cinzas do fogão e obrigavam-na a recolhê-las uma a uma. À noite, quando estava cansada
do trabalho árduo do dia, tinha de dormir em cima das mesmas cinzas. Por isso estava
sempre suja e empoeirada e foi apelidada de Cinderela.
Um dia em que o pai ia à feira, perguntou às suas enteadas o que elas gostariam de
ganhar.
– Roupas finas – disse uma.
– Pérolas e joias – disse a outra.
– E você, Cinderela? – ele perguntou.
– O primeiro galho que bater em seu chapéu no caminho de volta. Isso é o que gostaria
que me trouxesse.
Assim ele comprou roupas finas, pérolas e joias para as enteadas. No caminho de volta o
galho de uma aveleira bateu em seu chapéu, e ele quebrou-o e levou-o embora. Quando
chegou em casa, deu os presentes das enteadas e entregou o galho a Cinderela. Ela lhe
agradeceu e foi até o túmulo da mãe, onde plantou o galho, que regou com suas lágrimas
amargas. Com o tempo o galho floresceu e se transformou em uma bela árvore. Cinderela ia
vê-la três vezes ao dia, e lá chorava e rezava. A cada vez um passarinho branco saía da
árvore e lhe trazia qualquer coisa que ela por acaso dissesse desejar.
Um dia o rei ordenou a realização de uma festa que duraria três dias, à qual deveriam
comparecer todas as jovens bonitas do reino, pois entre elas seu filho escolheria uma noiva.
Quando as duas irmãs souberam que também tinham sido convidadas, alegraram-se e
chamaram Cinderela.
– Penteie nosso cabelo, lustre nossos sapatos e feche nossos vestidos, pois iremos à festa no
castelo do rei.
Ao ouvir aquilo, Cinderela não conseguiu reprimir o choro, pois ela também gostaria de ir
ao baile. Por isso implorou à madrasta que a deixasse ir.
– Você, Cinderela? Quer ir à festa toda suja e empoeirada? Não tem roupas nem sapatos,
mas quer dançar!
Como Cinderela insistiu muito, a madrasta disse:
– Derramei um prato de lentilhas nas cinzas do fogão. Se você recolher todas elas em
duas horas, poderá ir conosco.
Cinderela foi até a porta dos fundos, que dava para o jardim, e chamou:
Ó pombinhas, pombinhas amigas,
E todos os passarinhos do céu,
Peguem as lentilhas nas cinzas, Afastem de mim este fel.
As boas vão para o prato,
As más para o beleléu.
Duas pombinhas brancas vieram até a janela da cozinha. A seguir, uma multidão de
passarinhos, piando e batendo as asas, pousou nas cinzas. As pombinhas assentiram com a
cabeça e começaram pegar as lentilhas e colocá-las em um prato, no que foram seguidas
pelas outras aves. Em menos de uma hora o serviço ficou pronto e elas foram embora. Então
Cinderela levou o prato para a madrasta. Estava feliz e achava que agora poderia ir à festa,
mas a madrasta lhe disse:
– Não, Cinderela, você não tem roupas apropriadas e não sabe dançar. Vão rir de você.
Quando, desapontada, Cinderela começou a chorar, ela acrescentou:
– Se você recolher das cinzas dois pratos de lentilhas, poderá ir conosco.
“Por que isso não é possível”, ela pensou.
Assim que a madrasta espalhou dois pratos de lentilhas nas cinzas, Cinderela foi até a
porta dos fundos, que dava para o jardim, e chamou:
Ó pombinhas, pombinhas amigas,
E todos os passarinhos do céu,
Peguem as lentilhas nas cinzas, Afastem de mim este fel.
As boas vão para o prato,
As más para o beleléu.
Duas pombinhas brancas vieram até a janela da cozinha. A seguir, uma multidão de
passarinhos, piando e batendo as asas, pousou nas cinzas. As pombinhas assentiram com a
cabeça e começaram pegar as lentilhas e colocá-las em um prato, no que foram seguidas
pelas outras aves. Em menos de meia hora o serviço ficou pronto e elas foram embora. Então
Cinderela levou o prato para a madrasta. Estava feliz e achava que agora poderia ir à festa,
mas a madrasta disse: – Você não pode ir à festa porque não tem roupas adequadas e não sabe dançar. Vai nos
envergonhar.
A madrasta virou-lhe as costas e apressou-se em sair com as duas filhas orgulhosas. Como
não havia mais ninguém em casa, Cinderela foi ao túmulo da mãe e chorou debaixo da
aveleira:
Aveleira, aveleira, doce amiga do jardim,
Sacode os galhos com ouro e prata sobre mim.
E então o passarinho branco sacudiu a árvore e dela caiu um vestido de ouro e prata,
além de um par de sapatinhos de seda bordados. Rapidamente ela se arrumou para ir à
festa.
Cinderela estava tão linda em seu vestido dourado que a madrasta e as irmãs não a
reconheceram, pensando tratar-se de uma princesa estrangeira. O filho do rei veio até ela,
pegou-a pela mão e levou-a para dançar. O príncipe não quis dançar com mais ninguém. E
quando algum outro rapaz vinha convidá-la, ele respondia:
– Ela é o meu par.
Quando o sol se pôs, Cinderela quis ir embora, mas o príncipe disse que iria junto, pois
queria ver onde ela morava. Quando já se aproximavam da casa, a jovem escapou dele
pulando para dentro de uma casa de passarinhos. O príncipe esperou até que o pai dela
chegasse e contou-lhe o que havia acontecido. O pai pensou com seus botões que não podia
ser Cinderela e pediu machados e machadinhas para colocar abaixo a casa de passarinhos,
mas não havia ninguém lá dentro. Quando entraram na casa, lá estava Cinderela vestida
com suas roupas sujas, sentada no meio das cinzas. Um pequeno lampião emitia uma
luzinha fraca.
Cinderela tinha sido muito rápida e correra até a aveleira. Lá ela tirara o vestido dourado
e pousara-o no túmulo da mãe, e o passarinho branco levara-o embora. Depois ela colocou o
avental cinzento e voltou para as cinzas da cozinha.
No dia seguinte, quando a festa recomeçou e os pais e as irmãs já tinham saído, Cinderela
foi até a aveleira e disse:
Aveleira, aveleira, doce amiga do jardim,
Sacode os galhos com ouro e prata sobre mim.
E então o passarinho branco providenciou um vestido ainda mais esplêndido que o
anterior. E quando Cinderela apareceu entre os convidados, todos se espantaram com sua
beleza. O príncipe a estava esperando. Pegou-a pela mão e não dançou com mais ninguém.
E a todos que vinham tirá-la para dançar ele dizia:
– Ela é o meu par.
Quando o sol se pôs, Cinderela quis ir embora, mas o príncipe disse que iria junto, pois
queria ver onde ela morava. Mas Cinderela escapou e correu para o jardim dos fundos da
sua casa. Lá havia uma grande árvore repleta de peras esplêndidas. Cinderela escalou os
galhos como um esquilo, e o príncipe perdeu-a de vista. Então ele esperou pelo pai, e, quando
este chegou, disse-lhe que a estranha moça tinha fugido e provavelmente subira na árvore.
O pai pensou com seus botões que não podia ser Cinderela e pediu machados e
machadinhas para derrubar a árvore, mas não havia ninguém lá.
Quando entraram na cozinha, como sempre lá estava Cinderela, sentada entre as cinzas,
pois ela havia saído pelo outro lado da árvore e devolvido as roupas para o passarinho branco
da aveleira.
No terceiro dia, quando os pais e as irmãs saíram, ela voltou ao túmulo da mãe e disse à
árvore:
Aveleira, aveleira, doce amiga do jardim,
Sacode os galhos com ouro e prata sobre mim.
Então o passarinho fez surgir um vestido de inigualável esplendor e brilho, além de um
par de sapatinhos de ouro. E quando Cinderela apareceu na festa, todos ficaram mudos de
espanto. O príncipe dançou apenas com ela, e quando algum rapaz vinha tirá-la para
dançar, ele dizia:
– Ela é o meu par.
Quando o sol se pôs e o príncipe se preparava para acompanhá-la até em casa, ela passou
por ele correndo. Mas o rapaz tinha preparado um plano: cobrira todos os degraus com piche.
E foi assim que o sapatinho esquerdo ficou preso. O príncipe pegou-o e viu que era de ouro e
bem pequenininho.
Na manhã seguinte, ele foi até o pai de Cinderela e disse-lhe que a dona daquele
sapatinho seria a sua esposa. As duas irmãs ficaram muito felizes, pois elas tinham pés
bonitos.
A mais velha foi para o quarto experimentar o sapato, e sua mãe permaneceu a seu
lado. Mas a moça não conseguia enfiar o dedão, pois o sapato era muito pequeno. A mãe
deu-lhe uma faca e disse:
– Corte fora esse dedão, pois, quando você for rainha, não vai mais andar a pé.
A moça cortou fora o dedão, espremeu o pé no sapato, fez de conta que não estava
doendo e foi até o príncipe. Ele tomou-a como noiva e levou-a em seu cavalo. Quando
passavam pelo túmulo, as duas pombinhas empoleiradas na aveleira disseram:
Lá vão eles, lá vão eles, É sangue no sapato? É.
O sapato é pequeno demais,
A noiva certa ela não é.
O príncipe olhou para o sapato e viu o sangue. Dando meia-volta, levou a falsa noiva para
casa. Lá, disse-lhes que aquela era a noiva errada e que a outra irmã deveria provar o sapato.
A mais nova foi para o quarto e conseguiu enfiar o dedão sem problemas, mas o calcanhar
ficou de fora. A mãe deu-lhe uma faca e disse:
– Corte fora esse calcanhar, pois, quando você for rainha, não vai mais andar a pé.
A moça cortou fora um pedaço do calcanhar, espremeu o pé no sapato, fez de conta que
não estava doendo e foi até o príncipe. Ele tomou-a como noiva e levou-a em seu cavalo.
Quando passavam pelo túmulo, as duas pombinhas empoleiradas na aveleira disseram:
Lá vão eles, lá vão eles, É sangue no sapato? É.
O sapato é pequeno demais,
A noiva certa ela não é.
O príncipe olhou para baixo e viu o sangue escorrendo pelo sapato e manchando a meia
branca. Dando meia-volta, levou a falsa noiva para casa.
– Esta não é a certa – ele disse. – O senhor tem outra filha?
– Não – o homem respondeu. – Mas minha falecida esposa me deixou a pequena
Cinderela. É impossível que seja ela.
O filho do rei ordenou que a fossem buscar, mas a madrasta disse:
– Oh, não! Ela está muito suja. Não pode vê-la.
Mas ele não iria desistir, e Cinderela decidiu aparecer. Primeiro ela lavou o rosto e as
mãos. Depois foi até o príncipe e fez-lhe uma mesura. Ele lhe entregou o sapatinho de ouro.
Então Cinderela se sentou em um banquinho, tirou o pé dos pesados tamancos de madeira e
colocou-o no sapato. Ficou perfeito!
Quando ela se levantou, o príncipe mirou-a nos olhos e
viu novamente a linda moça com quem havia dançado.
– Esta é a noiva certa – ele exclamou.
A madrasta e as irmãs ficaram perplexas e roxas de raiva.
O príncipe colocou Cinderela em seu cavalo e partiu. Quando passaram pela aveleira, as
duas pombinhas lá empoleiradas disseram:
Lá vão eles, lá vão eles!
Não há sangue no pé.
O tamanho está correto, A noiva certa ela é.
E então as pombinhas voaram e pousaram nos ombros de Cinderela; uma no direito, outra
no esquerdo. No dia do casamento, as irmãs apareceram na esperança de cair nas graças de
Cinderela e poder participar das festividades. Quando a noiva entrou na igreja, a mais velha
se colocou do lado direito e a mais nova do lado esquerdo, e assim as pombinhas bicaram um
olho de cada uma delas. Na saída, a mais velha estava à esquerda e a mais nova à direita. E
as pombinhas bicaram o outro olho de cada uma delas. Por causa de sua maldade e
falsidade, foram condenadas a viver cegas pelo resto de seus dias.
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História encontrada no livro: Once Upon a Time - Uma antologia de contos de fadas. Para ler mais sobre contos de fadas, é só acessar a tag Era uma vez (aqui).
Há muito, muito tempo, houve um rei famoso em todo o país pela sua sabedoria. Nada ignorava e parecia que as notícias das coisas mais secretas lhe chegavam através do espaço. Esse rei tinha, porém, um hábito esquisito: todos os dias, uma vez terminadas as refeições, e ninguém mais se achando presente, um criado muito fiel devia trazer-lhe ainda uma sopeira coberta. O próprio criado não sabia o que continha, ninguém o sabia, porquanto o rei só a destapava quando estava completamente só.
Isso durava há bastante tempo, até que um dia, não resistindo à curiosidade, o criado, ao levar de volta a sopeira, carregou-a para o quarto. Fechou cuidadosamente a porta, levantou a tampa e viu dentro uma serpente branca. Não pôde furtar-se ao desejo de prová-la e cortou um pedacinho, levando-o à boca; mas, apenas lhe tocou a língua, ouviu através da janela um estranho sussurro de vozinhas sutis. Chegou à janela e pôs-se a escutar; percebeu que eram dois pardais que conversavam entre si, contando tudo o que tinham visto nos campos e bosques. O pedaço de serpente que provara dera-lhe a faculdade de entender a linguagem dos animais.
Ora, aconteceu que, justamente nesse dia, desapareceu o mais bonito anel da rainha. As suspeitas de furto recaíram sobre o criado fiel, que tinha entrada em todos os aposentos do palácio. O rei chamou-o à sua presença e repreendeu-o severamente, ameaçando condená-lo como ladrão se até ao dia seguinte não indicasse o verdadeiro autor do furto. De nada adiantaram os protestos de inocência; a posição dele era bastante precária.
Amedrontado e aflito, dirigiu-se ao pátio, cogitando uma maneira de sair daquela situação. Perto do regato que por lá serpeava, repousavam tranquilamente algumas patas, deitadas uma junto da outra; alisavam-se as penas com o bico e tagarelavam misteriosamente. O criado deteve-se a ouvi-las; cada qual contava onde estivera pela manhã e que ótimos quitutes havia encontrado. Uma delas, aborrecida, contou:
– Algo me pesa no estômago. Esta manhã encontrei um anel debaixo da janela da rainha e, na pressa com que estava comendo, enguli-o.
Imediatamente o criado pegou-a pelo pescoço e levou-a à cozinha, dizendo ao cozinheiro:
– Mata que esta está bem gorda.
O cozinheiro ergueu-a com a mão a fim de calcular o peso e disse:
– Realmente, esta não perdeu tempo em engordar e já está na hora de ser assada!
Cortou-lhe a cabeça, e, quando foi aberta, encontrou-se o anel da rainha em seu estômago. Assim, o criado pôde facilmente demonstrar sua inocência.
O rei, então, querendo reparar a injustiça cometida, autorizou-o a fazer um pedido e, ao mesmo tempo, ofereceu-lhe o mais alto cargo do reino.
O criado recusou tudo, pedindo somente um cavalo e dinheiro suficiente para viajar, pois tinha vontade de conhecer o mundo. O pedido foi atendido e ele pôs-se a caminho. Um dia, passando perto de uma lagoa, viu três peixes enredados nos juncos e que arquejavam fora da água. Embora se diga que os peixes sejam mudos, ele ouviu distintamente que se lamentavam por terem de morrer tão tristemente, e, como era de bom coração, desceu do cavalo e recolocou os três prisioneiros dentro da água. Eles voltaram a nadar alegremente e, pondo a cabeça para fora, disseram:
– Havemos de nos lembrar e te recompensaremos por nos teres salvo!
Ele prosseguiu o caminho e, pouco depois, pareceu-lhe ouvir uma voz sob os pés, saindo da areia. Deteve-se a escutar e ouviu o rei das formigas queixar-se:
– Oh, se os homens passassem ao largo com suas descuidadas montarias! Esse estúpido cavalo, com os pesados cascos, espezinhou sem piedade meu pobre povo!
Ele então desviou o cavalo para um caminho pedregoso e o rei das formigas disse-lhe:
– Havemos de nos lembrar e te recompensaremos!
A estrada, por onde seguia, conduziu-o a uma floresta; aí viu dois corvos, pai e mãe, que estavam atirando fora do ninho os filhotes!
– Fora, – gritavam, – fora daqui seus mandriões; não podemos mais alimentar-vos; fora, já estais suficientemente crescidos para sustentar-vos sozinhos.
Os pobres filhotes jaziam por terra, batendo as asas e gritando:
– Ai de nós, pobres infelizes! Temos de nos manter sozinhos e ainda nem sabemos voar! Não nos resta senão morrer aqui de fome!
O bom criado, então, desceu do cavalo e matou-o com a espada; depois entregou-o aos filhotes dos corvos para que se alimentassem. Estes acorreram saltitando, e após terem comido à vontade, disseram:
– Havemos de nos lembrar e te recompensaremos.
Agora não lhe restava outro recurso senão servir-se das próprias pernas. Anda e anda e anda, chegando afinal a uma grande cidade. As ruas estavam apinhadas de gente que fazia barulho ensurdecedor; nisso viu chegar um arauto a cavalo, anunciando que a filha do rei desejava casar-se, mas, quem aspirasse à mão dela, deveria antes executar uma tarefa extremamente difícil e se não o conseguisse seria morto. Muitos já haviam tentado e sacrificaram inutilmente a própria vida.
Quando o jovem viu a princesa, ficou tão fascinado com sua beleza que esqueceu todo e qualquer perigo e apresentou-se ao rei como pretendente.
Logo foi conduzido à beira mar onde, em sua presença, atiraram um anel de ouro à água. O rei ordenou que o pescasse do fundo do mar, acrescentando:
– Se voltares à tona sem o anel, serás mergulhado de novo, até morreres afogado.
Todo mundo lastimava a sorte do belo jovem. Ele ficou sozinho junto ao mar, pensando no que lhe cumpria fazer quando, de repente, viu surgirem três peixes que vinham nadando em sua direção; eram exatamente os mesmos que havia salvo durante sua viagem. O que vinha no meio trazia na boca uma concha, que depositou na areia, aos pés do jovem; este recolheu-a e, ao abri-la, encontrou dentro dela o anel de ouro.
Agradeceu aos peixes e, radiante de alegria, correu para levar o anel ao rei, esperando obter a prometida recompensa.
A orgulhosa princesa, quando soube que ele não era de sangue real, desprezou-o, exigindo que executasse outra tarefa. Descendo ao jardim, ela espalhou com as próprias mãos dez sacos de milho no meio da grama, e disse:
– Se quiser casar comigo, terá que catar todo esse milho, sem que falte um só grão, até amanhã cedo, antes de raiar o sol.
O jovem sentou-se preocupado no jardim e meditava, sem atinar na maneira de levar a termo aquela difícil tarefa. Desanimado e triste, contava ser condenado à morte assim que amanhecesse. Mas, quando os primeiros raios do sol iluminaram o jardim viu os dez sacos enfileirados, todos cheios, não faltando sequer um grãozinho de milho.
O rei das formigas havia chegado durante a noite com milhões de súditos, e os insetozinhos, reconhecidos e zelosos, cataram todos os grãozinhos e encheram os dez sacos.
A princesa desceu ao jardim e, pessoalmente, constatou, com grande assombro, que o jovem cumprira o que lhe tinha sido imposto. Ainda assim, não conseguiu vencer o orgulho que lhe dominava o coração.
– Embora tenha executado as duas tarefas, – disse ela, – não o desposarei a não ser que me traga uma maçã da árvore da vida.
O jovem ignorava completamente onde se encontrava a árvore da vida, contudo pôs-se a caminho, disposto a andar enquanto lhe permitissem as pernas, sem esperança, porém, de encontrar a tal árvore.
Havia já percorrido três reinos quando, um dia, ao entardecer, chegou a uma floresta. Muito cansado, sentou-se debaixo de uma árvore, tencionando dormir aí. De repente, ouviu um roçagar por entre os galhos e uma maçã de ouro veio cair-lhe na mão. No mesmo instante, desceram voando três corvos; pousaram-lhe sobre os joelhos, dizendo:
– Somos os três pequenos corvos que livraste de morrer de fome. Agora já crescemos e viemos a saber que andavas à procura da maçã de ouro, senão terias que morrer. Então atravessamos o mar, voando até aos confins do mundo, onde se encontra a árvore da vida, e de lá te trouxemos a maçã.
O jovem agradeceu muito e, radiante de alegria, retomou o caminho rumo ao palácio, levando a maçã à princesa. Dividiram pelo meio a maçã da vida e comeram-na juntos; assim o coração da princesa encheu-se de amor pelo jovem. Casaram-se e viveram bem felizes até idade muito avançada.
Conto dos Irmãos Grimm
O jovem agradeceu muito e, radiante de alegria, retomou o caminho rumo ao palácio, levando a maçã à princesa. Dividiram pelo meio a maçã da vida e comeram-na juntos; assim o coração da princesa encheu-se de amor pelo jovem. Casaram-se e viveram bem felizes até idade muito avançada.
Conto dos Irmãos Grimm
Era uma vez uma menininha meiga e querida por todos que a conheciam, mas era especialmente querida por sua avó, que não cansava de agradá-la. Certa vez a avó lhe deu uma capa com um capuz feita de veludo vermelho.
Assentou-lhe tão bem e a menina gostou tanto, que não queria usar outra roupa e por isso ganhou o apelido de Chapeuzinho Vermelho.
Um dia a mãe disse:
“Vem aqui, Chapeuzinho Vermelho, leve este bolo e esta garrafa de vinho à sua avó. Ela está fraca e doente e esses presentes lhe farão bem. Vá depressa, antes que o dia esquente, não se demore pelo caminho nem corra, para não cair e quebrar a garrafa e deixar sua avó sem vinho. Quando chegar, não esqueça de desejar: ‘Bom dia’, educadamente, sem ficar reparando em tudo”.
“Vou fazer tudo que me diz”, prometeu Chapeuzinho Vermelho à mãe.
Sua avó morava na floresta, a uma boa meia hora da aldeia. Quando a menina chegou à floresta, encontrou o lobo. Mas não sabia que ele era um animal malvado, por isso não teve um pingo de medo.
“Bom dia, Chapeuzinho Vermelho”, cumprimentou o lobo.
“Bom dia, lobo.”
“Aonde vai tão cedo, Chapeuzinho Vermelho?”
“À casa de minha avó.”
“Que está levando em sua cesta?”
“Bolo e vinho. Assamos o bolo ontem, por isso vou levá-lo para vovó. Ela precisa de alguma coisa para melhorar."
“Onde mora sua avó, Chapeuzinho?”
“A mais ou menos quinze minutos de caminhada. A casa dela fica à sombra de três grandes carvalhos, próxima a uma sebe de nogueiras que você deve conhecer”, respondeu Chapeuzinho Vermelho.
O lobo pensou: “Essa criaturinha será um bom petisco. Bem mais gostosa que a velha. Preciso ser esperto e abocanhar as duas.”
O animal acompanhou Chapeuzinho Vermelho por algum tempo, depois disse:
“Veja que bonitas flores, Chapeuzinho Vermelho. Por que não dá uma espiada à sua volta? Acho que você nem ouve os pássaros cantando, está séria como quem vai para a escola. Tudo é tão alegre aqui na floresta!”
Chapeuzinho Vermelho ergueu os olhos e, quando viu a luz do sol dançando entre as árvores e todas as flores vivamente coloridas, pensou: “Tenho certeza de que vovó ficaria satisfeita se eu lhe levasse um buquê de flores. Ainda é muito cedo; terei bastante tempo para apanhá-las.”
Saiu então da trilha e foi caminhando entre as árvores para colher as flores. Cada vez que colhia uma, sempre avistava outra ainda mais bonita um pouco adiante. Com isso ela foi se aprofundando na floresta.
Nesse meio-tempo, o lobo rumou direto para a casa da vovó e bateu na porta.
“Quem é?”
“Chapeuzinho Vermelho, que veio lhe trazer bolo e vinho. Abra a porta!”
“Empurre o trinco!”, gritou a velha. “Estou fraca demais para me levantar.”
O lobo empurrou o trinco e a porta imediatamente se abriu. Ele entrou depressa, se aproximou da cama sem dizer uma palavra e comeu a velha. Vestiu então sua camisola e a touca, se meteu na cama e fechou o cortinado.
Chapeuzinho Vermelho andou colhendo flores por todo lado até encher os braços e então tornou a lembrar da avó. Quando chegou à casa dela, ficou admirada de encontrar a porta aberta e, assim que entrou, o quarto e tudo o mais lhe pareceu muito estranho.
Ela se sentiu apreensiva, mas não sabia a razão. “Em geral gosto tanto de ver vovó.”, pensou. E então disse:
“Bom dia, vovó.” Mas não recebeu resposta.
Foi então até a cama e abriu o cortinado. A avó estava deitada, mas puxara a touca para cobrir o rosto e tinha uma aparência estranha. “Vovó, que orelhas grandes a senhora tem”, comentou.
“É para ouvi-la melhor, minha querida.”
“Vovó, que olhos grandes a senhora tem.”
“É para vê-la melhor, minha querida.”
“Mas, vovó, que dentes grandes a senhora tem.”
“É para comê-la melhor, minha querida.”
Mal acabara de dizer isso, o lobo pulou da cama e devorou a pobre Chapeuzinho Vermelho. Quando se deu por satisfeito, voltou para a cama e logo começou a roncar alto.
Um caçador passou pela casa e pensou: “Como a velha está roncando alto. Preciso ver se está acontecendo alguma coisa com ela.”
Ele entrou na casa, aproximou-se da cama e encontrou o lobo ferrado no sono.
“E não é que o encontro aqui, seu velho pecador!”, exclamou. “Faz bastante tempo que venho procurando você.”
E ergueu a espingarda para atirar, mas ocorreu-lhe que talvez o lobo tivesse comido a velha e que talvez ainda pudesse salvá-la.
O caçador apanhou uma faca e começou a abrir a barriga do animal. No primeiro corte viu o pequeno capuz vermelho e, com mais alguns golpes, a menininha pulou fora e exclamou:
“Ah, que medo eu tive, estava tão escuro dentro do lobo!”. Em seguida a velha avó saiu, viva, mas mal conseguia respirar.
Chapeuzinho Vermelho trouxe umas pedras grandes com as quais ela e o caçador rechearam o lobo, de modo que, quando o animal acordou e tentou correr, as pedras o arrastaram para trás e ele caiu morto.
Todos ficaram bem satisfeitos. O caçador esfolou o lobo e levou a pele para casa. A avó comeu o bolo e bebeu o vinho que sua neta trouxera, e logo se sentiu mais forte.
Chapeuzinho Vermelho pensou: “Quando minha mãe proibir, nunca mais vou sair passeando pela floresta enquanto eu viver.”
Também como parte importante para uma história ser reconhecida como conto de fadas temos os personagens. Nos contos de fadas os personagens mais comuns que encontramos são os chamados personagens-tipo. Estes são os personagens estereotipados, que não mudam em suas ações, qualidades ou defeitos. Isso significa que eles são totalmente bons ou totalmente maus.
Os personagens de um modo geral mostram a cultura da época em que surgiram ou foram reescritos. Isso acontece pelo fato de cada escritor carregar consigo sua “bagagem cultural”, transmitindo-a para as histórias que escrevia. Por causa disso cada escritor, de cada cultura ou século, apresentava traços diferentes nos seus personagens, apesar do cerne história permanecer o mesmo a cada reedição. O mesmo personagem pode ser mais ou menos inteligente, por exemplo, dependendo do escritor que conduzia a narrativa.
Khéde define os personagens por dois grupos:
Nos contos de fadas os personagens são tipos (marcados por um único traço), ou caricatura (quando este traço é muito reforçado), daí surgindo os estereótipos: a bruxa malvada, a fada bondosa, o sapo que vira príncipe, e assim por diante.
Podemos dividir os personagens-tipo em dois estereótipos distintos: os que pertencem ao bem, e os do mal. Como personagens que representam o bem, podemos citar a princesa e o príncipe que geralmente são o herói e a mocinha da história, as fadas que representam a magia e os reis e rainhas que mostram a autoridade, e geralmente estão em segundo plano.
Já os personagens-tipo que representam o mal, podemos citar as bruxas, os gigantes, a madrasta, os animais selvagens, entre outros. A figura da bruxa, por exemplo, existe há muito tempo, desde a Antiguidade. Ela é conhecida por encarnar o lado malévolo das histórias. Segundo Eco as bruxas eram velhas mulheres curandeiras que diziam conhecer ervas medicinais. Acreditava-se que as bruxas tinham ligação com o demônio.
Segundo Coelho, a fada e a bruxa são formas simbólicas da eterna dualidade da mulher ou da condição feminina. Nos personagens dos contos de fada é fácil percebermos que o ético e o estético se completam. Por este motivo entendemos que a princesa e a fada são sempre belas e boas, enquanto a bruxa e a madrasta são sempre feias e malvadas.
O lobo é um animal que com frequência é usado pelo conto como um objeto que representa o mal. Ele aparece em muitas histórias, entre elas: Os Três Porquinhos, Chapeuzinho Vermelho, Pedro e o Lobo, etc. Segundo Chevalier e Gheerbrant o lobo é sinônimo de selvageria e a loba de libertinagem.
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Para ver os outros posts sobre a origem das
histórias que tanto nos encantam, é só acessar a tag Era uma vez (aqui).
Hoje é dia da mulher, e eu não podia deixar de homenagear à todas nós com uma postagem falando dessa mulher (e história) que mostra a guerreira que existe dentro de todas.
Na época, em que o filme da Mulan (Disney) foi criado, virou um grande marco para a Disney, que pela primeira vez deixou de lado a ladainha de “princesa-esperando-pelo-príncipe-encantado”.
Desde 1937 (com o lançamento de “A Branca de Neve”), a Disney sempre deu enfoque na importância da beleza e da presença masculina na vida de uma personagem feminina. Até então, o grande final feliz dependia da princesa se casar ou não. Em 1998, Mulan mudou completamente esse paradigma da Disney, surpreendendo muita gente e transformando a personagem em uma das favoritas das meninas (inclusive minha).
Baseada em uma lenda muito famosa chinesa, Mulan, conta a história de uma jovem chamada Hua Mulan que se disfarçou de guerreiro, para substituir seu velho pai no Exército chinês para lutar na guerra, ela lutou bravamente sem ninguém descobrir ao lado de homens por 12 anos e ganhou grande mérito. Apesar de suas grandes conquistas ela recusou as várias recompensas oferecidas, inclusive uma delas era o cargo de oficial do Exército Chinês, e se retirou para sua cidade natal junto de sua família. Já em casa, os companheiros de guerra se surpreendem ao saber que o fantástico guerreiro era uma mulher.
A obra é originalmente um poema chinês escrito no século VI, durante a Dinastia Tang. Boa parte do conteúdo original foram perdidos e não se sabe concretamente se a história baseou-se em fatos verídicos. Com o passar do tempo, a história se popularizou na China, por ser uma das primeiras obras na história da China a demonstrar a igualdade entre os sexos, algo que na época era praticamente impossível.
A história da Mulan me mostra muito o grande poder que temos e devemos usar. As mulheres são guerreiras, inteligentes, amorosas e concentram toda força que precisam para se realizar pessoal e profissionalmente. Desejo à todas as mulheres, minhas leitoras que agora leem essa simples postagem, a nunca desistirem de seus sonhos, e que o final feliz é você quem faz com você mesma.
Para finalizar, a música do filme que acho linda:
Na época, em que o filme da Mulan (Disney) foi criado, virou um grande marco para a Disney, que pela primeira vez deixou de lado a ladainha de “princesa-esperando-pelo-príncipe-encantado”.
Desde 1937 (com o lançamento de “A Branca de Neve”), a Disney sempre deu enfoque na importância da beleza e da presença masculina na vida de uma personagem feminina. Até então, o grande final feliz dependia da princesa se casar ou não. Em 1998, Mulan mudou completamente esse paradigma da Disney, surpreendendo muita gente e transformando a personagem em uma das favoritas das meninas (inclusive minha).
Baseada em uma lenda muito famosa chinesa, Mulan, conta a história de uma jovem chamada Hua Mulan que se disfarçou de guerreiro, para substituir seu velho pai no Exército chinês para lutar na guerra, ela lutou bravamente sem ninguém descobrir ao lado de homens por 12 anos e ganhou grande mérito. Apesar de suas grandes conquistas ela recusou as várias recompensas oferecidas, inclusive uma delas era o cargo de oficial do Exército Chinês, e se retirou para sua cidade natal junto de sua família. Já em casa, os companheiros de guerra se surpreendem ao saber que o fantástico guerreiro era uma mulher.
A obra é originalmente um poema chinês escrito no século VI, durante a Dinastia Tang. Boa parte do conteúdo original foram perdidos e não se sabe concretamente se a história baseou-se em fatos verídicos. Com o passar do tempo, a história se popularizou na China, por ser uma das primeiras obras na história da China a demonstrar a igualdade entre os sexos, algo que na época era praticamente impossível.
Curiosidades:
- Mulan é a única Princesa Disney que tem descendência oriental.
- A roupa de noiva rosa de Mulan é muitas vezes confundida por um kimono (que é japonês), mas é um hanfu, uma peça do vestuário chinês.
- Mulan é a única Princesa Disney para ter um sobrenome conhecido (e confirmado).
- Mulan é a única princesa cujo vestido de casamento é de uma cor diferente que não seja branco, no seu caso, esse vestido é vermelho, a cor da prosperidade de acordo com a cultura chinesa.
- Mulan é, de longe, a personagem Disney (heroína ou vilão), responsável pela maior quantidade de mortes.
- O melhor amigo de Mulan é Mushu. E ela é a única Princesa Disney que tem uma criatura mítica como um melhor amigo.
- Mulan segue o seu coração, mas ainda mantém a inteligência em primeiro lugar.
A história da Mulan me mostra muito o grande poder que temos e devemos usar. As mulheres são guerreiras, inteligentes, amorosas e concentram toda força que precisam para se realizar pessoal e profissionalmente. Desejo à todas as mulheres, minhas leitoras que agora leem essa simples postagem, a nunca desistirem de seus sonhos, e que o final feliz é você quem faz com você mesma.
Para finalizar, a música do filme que acho linda:
Perto de uma grande floresta viviam um lenhador pobre, sua esposa e seus dois ilhos. O menino se chamava João e a menina se chamava Maria. Eles sempre tiveram muito pouco para comer, mas, certa vez, quando houve uma grande fome na terra, o homem já não conseguia sequer ganhar o pão de cada dia. Uma noite, enquanto se revirava na cama pensando sobre o assunto, ele suspirou profundamente e disse à esposa:
– O que será de nós? Não conseguimos nem alimentar nossos filhos. Não sobrou nada para nós.
– Eu lhe digo o que faremos, marido – a mulher respondeu. – Levaremos as crianças para a floresta amanhã bem cedo, no lugar onde o mato é mais espesso. Faremos uma fogueira e daremos um pedaço de pão a cada um. Então iremos para o nosso trabalho e os deixaremos lá. Eles jamais encontrarão o caminho de volta, e assim nos livraremos deles.
– Não, mulher! – o homem exclamou. – Não posso fazer isso. Não consigo nem imaginar a ideia de levar meus filhos à floresta e deixá-los lá sozinhos. Logo eles seriam devorados pelas feras.
– Você é um tolo – ela protestou. – Vamos todos morrer de fome. É melhor providenciar já os caixões. – E não lhe deu sossego até que ele concordasse com o plano.
– Mas tenho muita pena das crianças – disse o homem.
Como estavam famintos, os dois irmãos não conseguiam dormir e acabaram ouvindo tudo o que a madrasta dissera ao seu pai. Maria chorou de tristeza e disse a João:
– É o nosso fim.
– Fique calma, Maria. Eu vou dar um jeito nisso.
Quando os pais adormeceram, João se levantou, vestiu seu casaquinho, abriu a porta dos fundos e esgueirou-se para fora. A lua brilhava no céu, e as pedrinhas brancas em frente da casa cintilavam como moedas de prata. João recolheu-as e encheu o bolso com elas. Então entrou em casa e disse a
Maria:
– Sossega, irmãzinha, e durma tranquila, pois Deus não nos abandonará – e voltou a deitar-se.
Nas primeiras horas da manhã, antes de o sol nascer, a mulher acordou as duas crianças.
– Acordem, preguiçosos. Vamos para a floresta cortar lenha – ela ordenou.
E então deu a cada um um pedaço de pão.
– É para o jantar – disse-lhes. – Não comam antes, porque não temos mais.
Maria colocou os pães debaixo do avental, pois João levava os bolsos cheios de pedrinha. Partiram todos juntos para a floresta. Quando haviam caminhado um tanto, João parou e virou-se na direção da casa. Fez isso várias vezes. Por fim, seu pai lhe perguntou:
– João, para o que você está olhando? Ande para a frente, menino.
– Mas, pai – João disse –, estou olhando para o meu gatinho, que está no telhado para me dizer adeus.
– Não seja bobo – a mulher o repreendeu. – Aquilo não é o gato, mas o sol batendo na chaminé.
É claro que João não estava olhando para o gatinho. Na verdade, ia tirando as pedrinhas do bolso e jogando-as pelo caminho.
Quando chegaram ao meio da floresta, o pai pediu aos filhos que fossem pegar madeira para acender uma fogueira e se aquecer. João e Maria fizeram um pequeno monte com galhos e acenderam o fogo. E então a mulher ordenou:
– Agora deitem-se ao lado da fogueira e descansem, crianças. Eu e seu pai vamos cortar lenha. Quando terminarmos, viremos buscá-los.
João e Maria sentaram-se ao lado do fogo e, ao meio-dia, comeram seus pedaços de pão. Eles achavam que o pai ficara na floresta o tempo todo, pois pensavam ouvir o barulho do machado, mas na verdade o ruído vinha de um galho pendurado em uma árvore ressecada, que o vento fazia balançar para lá e para cá. Depois de um tempo longo, seus olhos se fecharam de cansaço e eles adormeceram. Quando acordaram, já era noite. Maria começou a chorar:
– Como vamos sair desta floresta?
Mas João a confortou: – Espere um pouco mais, até a lua surgir. Então encontraremos facilmente o caminho de casa.
Quando a lua cheia se levantou no céu, João pegou a irmãzinha pela mão e os dois seguiram a trilha de pedrinhas brancas que brilhavam ao luar e iluminavam o caminho de casa. Passaram a noite inteira andando. Ao raiar do dia, chegaram à casa do pai e bateram na porta. A madrasta atendeu. Quando ela viu João e Maria, disse:
– Mas que crianças levadas! Por que ficaram tanto tempo dormindo na floresta? Pensamos que vocês não mais voltariam.
O pai ficou feliz, pois estava com o coração doendo por tê-los deixado sozinhos na floresta. Não tardou muito para que outra fase de escassez voltasse, e as crianças ouviram a madrasta dizer ao pai, à noite, na cama:
– Acabou a comida. Temos apenas meio pão. Chega. As crianças devem ir embora. Dessa vez vamos penetrar ainda mais na floresta, para que não consigam achar o caminho de volta. Essa é a nossa única opção. O homem ficou triste.
– Seria melhor dividirmos o último bocado com eles – respondeu ele.
Sua mulher, porém, não queria saber e o repreendeu. Quando um homem cede uma vez, acaba cedendo de novo.
As crianças não estavam dormindo e ouviram toda a conversa. Quando os pais adormeceram, João se levantou para recolher mais pedrinhas brancas do que na primeira vez, mas a madrasta tinha trancado a porta e ele não conseguiu sair. João consolou a irmãzinha, dizendo:
– Não chore, Maria. Vá dormir que Deus vai nos ajudar.
Na manhã seguinte, a mulher tirou as crianças da cama bem cedo. Ela deu um pedaço de pão para cada um deles; menos do que antes. A caminho da floresta, João esmigalhou o pão e guardo-o no bolso. De tempos em tempos ele parava para jogar no chão uma migalha.
– João, por que você fica aí parado? – perguntou o pai.
– Estou olhando a pombinha sentada no telhado – João respondeu.
– Que bobo! – a mulher protestou. – Não é a pomba, mas o sol da manhã batendo na chaminé.
João continuou andando e espalhando migalhas de pão pela estrada afora. A mulher levou as crianças até o coração da floresta, onde nunca eles haviam estado. Mais uma vez fizeram uma fogueira e a madrasta disse:
– Sentem-se crianças. Quando se cansarem, podem dormir. Nós vamos cortar lenha e à noite viremos buscá-los.
Ao meio-dia Maria dividiu com João seu pedaço de pão, uma vez que o outro fora espalhado ao longo do caminho. Então eles dormiram e a tarde passou. Ninguém foi buscar os pobrezinhos. Quando eles acordaram, já era
noite. João consolou a irmãzinha, dizendo:
– Espere um pouco Maria, só até a lua aparecer. Então conseguiremos ver as migalhas de pão que deixei pelo caminho.
Quando a lua surgiu no céu, eles se levantaram, mas não acharam nenhuma migalha de pão, pois os pássaros haviam comido todas elas. João pensou que ainda assim eles achariam o caminho de volta, mas isso não aconteceu. Os irmãos caminharam toda a noite e todo o dia seguinte, mas não conseguiram sair da floresta. Eles estavam famintos, pois a única coisa que tinham para comer eram algumas frutinhas silvestres. Quando se sentiram cansados a ponto de não conseguir dar mais nem um passo, deitaram-se embaixo de uma árvore e adormeceram.
Aquela era a terceira manhã desde que haviam deixado a casa do pai. Estavam tentando voltar para lá, mas afundavam cada vez mais na floresta. Se não encontrassem socorro rapidamente, morreriam de fome.
Perto do meio-dia, João e Maria avistaram um lindo passarinho branco empoleirado em um galho. O bichinho entoava uma melodia tão doce que eles pararam para escutar. Assim que terminou de cantar, a ave abriu as asas e voejou na frente das crianças, que a seguiram até uma casinha. Quando João e Maria se aproximaram, perceberam que as paredes da casa eram feitas de pão, que o telhado era feito de bolos e que as janelas eram de açúcar transparente.
– Vamos provar – disse João – e fazer uma ótima refeição. Eu vou comer um pedaço do telhado, Maria, e você pode comer a janela, que deve ser bem doce.
E assim João esticou a mão e quebrou um pedacinho do telhado, para ver que gosto tinha. Maria aproximou-se da janela e deu-lhe uma dentada. De repente, porém, eles ouviram uma voz fina vindo de dentro da casa:
Ora, ora, ora.Quem rói minha casinha a esta hora?E os irmãos responderam:Não duvide por um momento que foi apenas o vento.
E continuaram comendo. João, que tinha gostado muito do sabor do telhado, pegou um pedaço maior, e Maria arrancou uma fatia grande da janela, sentando-se para comê-la. Nesse momento a porta se abriu e uma
velha saiu de lá de dentro apoiada em uma bengala. João e Maria ficaram assustados e derrubaram a comida no chão. A velha, porém, sacudiu a cabeça, dizendo:
– Ah, crianças, como vão vocês? Entrem e me façam companhia. Está tudo bem.
A velha pegou as crianças pela mão e levou-as para dentro da casa. Serviu-lhes leite e panquecas com açúcar, maçã e castanhas. A seguir, mostrou-lhes duas camas. João e Maria se deitaram, achando que estavam no céu.
Embora parecesse boa, a velha era na verdade uma bruxa má que vivia à espera de crianças e havia construído aquela casa com o objetivo de atraí-las. Assim que as crianças entravam, ela as matava, cozinhava e comia. Os olhos da bruxa eram vermelhos e ela não enxergava muito bem, mas tinha um olfato excelente e sabia muito bem quando havia seres humanos por perto. Quando percebeu que João e Maria estavam se aproximando, soltou uma gargalhada e disse, triunfante:
– Eu os peguei. Eles não vão escapar.
Na manhã do dia seguinte, antes que as crianças acordassem, ela foi vê-los. Os irmãos dormiam tranquilamente e tinham as bochechas rosadas.
– Que banquete eu vou ter! – a bruxa exclamou.
Ela agarrou João com sua mão ressecada e levou-o para um pequeno estábulo, trancando-o atrás de uma grade. Não adiantou o menino gritar. Então ela voltou para a casa e começou a sacudir Maria, gritando:
– Acorde, preguiçosa. Vá pegar água e cozinhe alguma coisa gostosa para o seu irmão. Ele está lá fora no estábulo e precisa engordar. E quando ele estiver bem gordinho vou comê-lo.
Maria pôs-se a chorar, mas não adiantou nada. Teve de fazer o que lhe ordenara a bruxa má.
E foi assim que a melhor comida foi servida para João. Para Maria sobraram apenas cascas de caranguejos. Todas as manhãs a bruxa ia ao estábulo e gritava:
– João, ponha o dedo para fora para eu ver se você já engordou.
João, no entanto, mostrava-lhe um ossinho, e, como a velha enxergava mal, achava que o menino continuava magro. Ela não entendia por quê. Depois de quatro semanas, perdeu a paciência.
– Maria, vá logo pegar água – ela gritou para a menina. Esteja gordo ou esteja magro, amanhã vou matá-lo e comê-lo.
Oh, que agonia para a pobre Maria ter de pegar água para cozinhar o próprio irmão! Lágrimas rolaram por seu rosto.
– Por favor, meu bom Deus, ajude-nos. Se tivéssemos sido devorados pelas feras da floresta, pelo menos teríamos morrido juntos.
– Deixe de lamentações – protestou a velha. – Elas não servem para nada.
Na manhã seguinte, Maria teve de se levantar bem cedo, acender o fogo e encher a chaleira.
– Primeiro vamos fazer o assado – a velha disse. – Já aqueci o forno e sovei a massa.
Ela empurrou Maria na direção do forno, onde as chamas brilhavam.
– Entre – ordenou a bruxa – e veja se está bem quente para assar o pão.
Assim que Maria entrasse no forno, a bruxa pretendia fechá-la lá dentro para assá-la e comê-la também, mas Maria percebeu suas intenções e disse:
– Eu não sei fazer isso. Como é que se entra no forno?
– Garota burra – a velha respondeu. – A abertura é bem grande, não está vendo? Até eu consigo entrar. – E a velha esticou o tronco e pôs a cabeça na boca do forno. Então Maria deu-lhe um empurrão, enfiou-a lá dentro e trancou a porta. A velha urrou! Mas Maria saiu correndo e deixou a bruxa má assando. Foi direto até onde estava João e soltou-o.
– João, estamos livres. A bruxa velha está morta.
Tão logo a porta se abriu, João saiu de sua prisão. Como os dois estavam felizes! Eles se abraçaram e começaram a dançar. E como não havia nada mais a temer, vasculharam a casa da bruxa. Encontraram caixas de joias com pérolas e pedras preciosas por todos os cantos.
– Isto é muito melhor do que pedrinhas brancas – João constatou, enchendo os bolsos, enquanto Maria, pensando que também deveria levar algumas para casa, começou e encher o avental.
– Agora vamos tentar sair da floresta da bruxa – propôs João.
Depois de algumas horas de caminhada, surgiu um rio imenso.
– Não vamos conseguir atravessar – João disse. – Não estou vendo pedras nem ponte.
– Não há nenhum barco também – Maria acrescentou. – Mas veja ali um pato branco! Se eu pedir, ele vai nos ajudar. Maria gritou:
Pato, pato, aqui estamos,João e Maria, na margem do rio.Não temos pedras nem ponte,leve-nos em seu dorso branco.
O pato se aproximou. João montou nele e chamou a irmã.
– Não – Maria disse. É peso demais para o pato. Vamos separados, um depois do outro.
E assim eles se arranjaram e cruzaram o rio. Depois de um tempo a paisagem começou a lhes parecer familiar. De repente, avistaram a casa do pai a distância. Os dois irmãos correram até lá, entraram esbaforidos e se agarraram ao pescoço do pai. O homem não tivera um minuto de sossego desde que deixara os filhos na floresta; a mulher tinha morrido.
Maria abriu seu avental, espalhando as pérolas e as pedras preciosas pelo chão. E João pegou outro punhado delas no bolso. Assim tudo ficou resolvido, e ao final eles viveram juntos e felizes.
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História completa de João e Maria encontrada no livro: Once Upon a Time - Uma antologia de contos de fadas.
Para ler mais sobre contos de fadas, é só acessar a tag Era uma vez (aqui).
Os narradores eram os que geralmente guardavam as histórias em suas memórias, para depois contar para as outras pessoas. Como o narrador encontra-se fora da história, o foco narrativo é externo, segundo Coelho (1991).
A linguagem dos contos de fadas possui metáforas. Podemos notar isso pela presença dos personagens encantados e inanimados como árvores e animais, que demonstram emoções.
Segundo Khéde (1986):
Na literatura infanto-juvenil a posição do narrador e dos personagens será de importância primordial para assegurar ao gênero seu estatuto literário, e com isso libertá-lo da vocação pedagógico-moralizante proveniente das circunstâncias históricas de seu surgimento. O enfraquecimento do poder autoritário do narrador, na maioria das vezes representado pelo adulto, e a força dada ao crescimento dos múltiplos pontos de vista dos personagens implicarão a identificação do leitor com o universo ficcional, numa perspectiva de liberdade, e não de imposição ou de sedução por parte de um doador despótico.
Em uma história o tempo acontece no imaginário ou não. Nos contos de fada, o tempo é situado no passado, mesmo sem exatidão. Há muitos recursos que o escritor usa para marcar o tempo em sua narrativa, ou para registrar o processo temporal em que os personagens estão envolvidos. Percebemos essa presença do tempo já no início da história, com o “Era uma vez...”, “Aconteceu em uma terra longínqua...” ou “Há muito tempo atrás...”. Também podemos notar o tempo na sucessão dos dias e das noites, pelas modificações do espaço, pelos fatos do cotidiano, e outros.
O conto acontece de forma linear, contendo início, meio e fim.
Já o espaço geralmente é representado através de um reino muito distante, um ambiente, cenário, cena, mundo exterior. Sua importância no conto é igual a importância do nosso cotidiano para a vida real. Os lugares estabelecem o conjunto de características com que os personagens interagem nas histórias.
Coelho (2000) cita três espécies de espaço:
Espaço natural: paisagem, gruta, montanha, planície, deserto, mar, rios... Enfim, a natureza livre, o ambiente aberto, não modificado pelo trabalho do homem, pela civilização tecnológica.
Espaço social: casa, castelo, palácio, tenda, veículo de locomoção como trem, charrete, avião, carro, foguete, etc., ou melhor, os elementos da natureza ou do ambiente modificados pela técnica, pelo trabalho de transformação do homem.
Espaço trans-real: ambiente criado pela imaginação do homem; espaço não localizável no mundo real, tal como o conhecemos; espaço maravilhoso. É o espaço existente nas antigas novelas de cavalaria, nos contos maravilhosos, nas fábulas, etc. Encontrável também na ficção científica.
Geralmente o cenário também carrega a grande importância da diferença entre o bem e o mal. O cenário da floresta, de alguns contos, representa o perigoso, o escuro. Já o castelo, representa um cenário de prosperidade, de amor, algo bom e mágico.
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Para ver os outros posts sobre a origem das
histórias que tanto nos encantam, é só acessar a tag Era uma vez (aqui).
Os contos são constituídos por vários elementos que segundo Coelho (1991) são conhecidos na literatura por recursos estruturais. São esses recursos estruturais que juntos formam um conto.
Dos contos populares de tema adulto para a temática infantil, a principal característica é obter em suas histórias a presença de um espírito maravilhoso, com ou sem a presença das fadas. A principal característica do conto de fada é que, ao desenrolar da história, geralmente seus personagens possuem motivo e motivação comuns, além do encantamento, em que um ser sobrenatural interfere na história de maneira positiva ou negativa.
A dimensão do mundo fantástico carrega na sua narrativa um simbolismo muito significativo e contraditório: a dor e o amor, o medo e a felicidade, a vida e a morte. A revelação desta arte literária distancia em símbolos o bom e o mau. Neste contexto, é observável que as narrativas contam o relato do homem, seus desejos, suas expectativas, a superação do mal e a permanência do bem.
Os contos de fadas tiveram origem de diversas fontes, de séculos diferentes e distantes um do outro. Apesar disso, alguns aspectos/características da estrutura se repetem como algo comum entre todos os contos.
Uma difusão realmente espantosa, quando lembramos que, nesses tempos primordiais, a comunicação se dava de pessoa para pessoa e os povos que receberam tais narrativas viviam distanciados geograficamente, separados por montanhas, rios, mares, em um tempo em que as viagens eram feitas a pé, ou a cavalo ou em barcos toscos... Isso prova a força da palavra como fator de integração entre os homens (COELHO, 2008).
Segundo Propp (1997) as etapas da narrativa do conto de fadas são: situação inicial, conflito, processo de solução e o sucesso final com o “felizes para sempre”. Este é um dos motivos pelos quais essas histórias se perpetuam durante séculos. Sua simplicidade faz com que as pessoas lembrem os acontecimentos com clareza, passando esse conhecimento de geração para geração.
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Na Dinamarca em 1905, Hans Christian Andersen, filho de sapateiro, surge com contos que relatam as marcas de sua própria vivência social; utilizando-se do maravilhoso com maior frequência. A maioria de seus contos carregava certa melancolia (característica do período romântico): as histórias que possuem um desfecho triste aparecem em maior número que as de final feliz. Ele virou um contista infantil conhecido no mundo todo pelos contos: Soldadinho de Chumbo, Sereiazinha, A pequena Vendedora de Fósforos e A Rainha de Neve.
Um exemplo de conto que transmite esta melancolia com que ele escrevia era A Pequena Vendedora de Fósforos. Na história que acontece na noite de Natal, não existe um “final feliz” como em outros contos, pelo contrário, a menina morre de frio em um beco da cidade. Na tradução para a língua portuguesa, segundo Martin (1994):
(...) Cedinho, na manhã fria, a menininha ainda estava sentada no canto entre as duas casas. Suas bochechas estavam vermelhas e ela tinha um sorriso nos lábios... Ela estava morta, tinha congelado até morrer na véspera de Ano Novo. A manhã do Ano Novo surgiu sobre o corpinho sentado ali com os fósforos, um pacote quase totalmente queimado. “Ela só queria se manter aquecida!” alguém disse. Mas ninguém sabia que coisa linda ela tinha visto, ou com que esplendor ela tinha entrado no Ano Novo com a sua avó idosa (MARTIN, 1994, p.69).
Segundo Coelho (2008), os contos de Andersen mostram à sociedade as injustiças que estão presentes em seus alicerces, mas ao mesmo tempo oferecendo o caminho para neutralizá-las: a fé religiosa. Diferente dos outros, Andersen criou e escreveu desde peças de teatro até canções patrióticas. Ele foi o primeiro escritor a ser reconhecido por contos redigidos para o público infantil.
Tempos depois o escritor Charles L. Dodgson, conhecido como Lewis Carrol surge com as Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865). Ele era matemático, e também escreveu alguns poemas. Segundo Cademartori (1994), ele criou histórias sem moralidade, abandonando o tom sentencioso comum às histórias do século XIX.
Em um passeio de barco que Lewis Carroll fez com as irmãs Liddell, contou uma história. Uma das irmãs, Alice Liddell, ficou encantada com a história e pediu que Carroll a escrevesse, para que ela nunca esquecesse. Assim surgiu a famosa história de Alice no País das Maravilhas (hoje um sucesso no cinema), onde uma menina aumentava e diminuía de tamanho para descobrir um mundo novo. Alice é um perfeito exemplo de conto que nasceu da tradição oral.
Na Alemanha destacam-se Jacob e Wilhelm Grimm, filólogos e grandes folcloristas, estudiosos da mitologia germânica e da história do Direito alemão. Os irmãos Grimm, como são conhecidos até hoje, recolhem da memória popular as antigas narrativas maravilhosas, lendas ou sagas germânicas. Eles visitavam aldeias e ouviam das pessoas que lá moravam histórias que elas ouviram de seus familiares.
Uma vez que as histórias dos Grimm alcançaram o interesse emocional e inconsciente do público, sua coleção de contos de fadas foi um sucesso. Pessoas de todos os lugares começaram a colecionar contos. Os primeiros textos foram publicados com o título Contos de Fadas para Crianças e Adultos (1812-1822).
Os textos que os irmãos Grimm copilaram do povo alemão, selecionados entre as centenas que havia na memória dos germânicos, acabaram por formar a coletânea que é conhecida hoje como Literatura Clássica Infantil. Seus contos mais conhecidos são: A Bela Adormecida; Branca de Neve; Chapeuzinho Vermelho; A Gata Borralheira; O Ganso de Ouro; A Guardadora de Gansos; Joãozinho e Maria; O Pequeno Polegar; O Príncipe Sapo e muitos outros que correm o mundo. Estes contos, mais tarde, foram reunidos no livro Contos de Fadas para Crianças e Adultos, conhecidos hoje como Contos de Grimm.
De acordo com Coelho (1991) foi no período da Pós-Revolução Francesa, com uma maior pressão para que as crianças se adequassem aos moldes da sociedade que começava a crescer, tais textos de grande força educadora chamaram a atenção daqueles que queriam educar. Os textos dos irmãos Grimm, assim, surgiram em um período no qual se começava a descobrir o universo infantil.
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Para ver os outros posts sobre a origem das
histórias que tanto nos encantam, é só acessar a tag Era uma vez (aqui).
A compilação de contos de origem oral em textos literários iniciou-se ainda no século XII. Foi neste período que a criança ganhou um espaço maior dentro da família e da sociedade. O primeiro grande autor que coletou as narrativas populares e as publicou foi o francês Charles Perrault ainda no século XVII, na França.
Segundo Zinani (2010):
Anteriormente, essa literatura era dirigida a um público indiferenciado, circulava de forma oral e não tinha vocação pedagógica. Assim, pode-se dizer que a literatura infantil iniciou com o francês Perrault, no século XVII, que coletou e registrou lendas e contos medievais, adaptando-os ao gosto da corte e inserindo-lhes certa preocupação pedagógica. Mais adiante, no século XIX, nova coleta foi realizada, agora na Alemanha, pelos irmãos Grimm. Esses textos popularizaram-se como contos de fadas, constituindo-se, por longo tempo, como referência da literatura infantil ( ZINANI, 2010, p.36).
Perrault (poeta e advogado de prestígio na corte de Luís XIV) sentia-se atraído pelos relatos maravilhosos guardados pela memória do povo. Com esse trabalho de interpretação ele criou o primeiro núcleo da literatura infantil ocidental. Esse núcleo ficou amplamente conhecido como Contos da minha Mamãe Gansa, que reuniu oito histórias contadas pelo povo da região.
Nas histórias de Perrault pela primeira vez houve uma preocupação com a criança. Ele procurou embutir nas narrativas populares os valores civilizados nos quais ele acreditava. Entretanto, ele não escrevia para crianças, mas para um público adulto que poderia contar ou não as histórias para as crianças. Desse modo, os contos chegavam às crianças de maneira indireta.
Segundo Góes (1991), as histórias de Perrault eram criações poéticas com muitos detalhes, e que graças à isso davam a ideia que essas histórias tinham uma conotação de realidade. Ele utiliza em seus contos o confronto dualista entre bons e maus, feios e belos, fracos e fortes, como crítica à corte. Não raro os personagens das classes discriminadas se tornam superiores à nobreza pela inteligência. Alguns dos seus mais conhecidos contos são: Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas, A Bela Adormecida no Bosque e Cinderela.
Podemos perceber os detalhamentos dos contos de Perrault, por exemplo, no conto Barba Azul:
Era uma vez um homem que possuía belas casas na cidade e no campo, baixelas de ouro e de prata, móveis de madeira lavrada e carruagens douradas. Mas, para sua infelicidade, esse homem tinha a barba azul, e isso o tornava tão feio e tão assustador que não havia nenhuma mulher e nenhuma moça que não fugisse da sua presença (PERRAULT, 1994, p.189).
Após a Revolução Francesa nasce o romantismo, impondo uma nova razão. Os contos de fada passam para segundo plano no interesse dos adultos refugiando-se definitivamente no mundo infantil. Segundo Coelho (2008):
Como gênero, a Literatura Infantil nasceu com Charles Perrault. Mas somente cem anos depois, na Alemanha do século XVIII, e a partir das pesquisas linguísticas realizadas pelos Irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm), ela seria definitivamente constituída e teria início sua expansão pela Europa e pelas Américas (COELHO, 2008, p.29).
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Esse é um post sobre contos de fadas. Para ver os outros sobre a origem das histórias que tanto nos encanta, é só acessar a tag Era uma vez (aqui).
Foi na era medieval que os
contos começaram a encontrar seus mais fiéis espectadores até hoje: as
crianças. Porém, na sociedade medieval, a infância não acontecia como a conhecemos
hoje. Os adultos davam menor importância as crianças e sua fragilidade.
Segundo Ariès (1981):
A passagem da criança
pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante para que
tivesse tempo ou razão de forçar a memória e tocar a sensibilidade. (...) Se
ela morresse então, como muitas vezes acontecia, alguns podiam ficar desolados,
mas a regra geral era não fazer muito caso, pois uma outra criança logo a
substituiria. A criança não chegava a sair de uma espécie de anonimato (ARIÈS,
1981, p. 10).
No século XII, surge o amor
cortês, de matéria bretã. Ainda na Idade Média,
muitas das histórias que pertenceram ao universo adulto foram devidamente
editadas para que se ensinasse a moral às crianças herdeiras de tronos e
aristocratas.
A Idade Média foi marcada,
segundo Eco (2007), por contradições em que as manifestações públicas de
piedade e rigidez acompanhavam o pecado. A imagem do feio entrelaçado com o mau
aparece nos contos e histórias. Nesta época acreditavam que depois do sofrimento
viria a glória eterna.
Este pensamento era percebido
com facilidade nos contos da época, como o do Pequeno Polegar. No conto, a família do Pequeno Polegar acreditava
que abandonando os filhos, não precisariam matá-los, e nem os mesmos morreriam
de fome. As imagens e ilustrações dos contos desta época representavam esta
crueldade.
Gustave Doré, que viveu entre
1832 e 1883, não vivenciou esta época. Mesmo assim, mostrou em seus desenhos e
ilustrações para os mais variados livros, um pouco desta crueldade. O livro
infantil com os contos de Perrault é um dos mais conhecidos ilustrados por ele.
No fim da Idade Média, quando
se expandiam os romances bretões e as narrativas orientais pelas diferentes
regiões europeias, começam a circular novas narrativas. São esses novos textos
de origem popular que divulgam a criação novelesca, que viria a se tornar a
grande moda dos tempos modernos, a partir do Renascimento no século XVI.
Quando chegaram ao final do
século XVII, essas narrativas maravilhosas já começavam a decair. Parte delas transformou-se
em narrativas populares folclóricas, outra parte foi desaparecendo nos romances
de aventuras heróico-amorosas.
No século XIX as narrativas
continuam mudando. Segundo Khéde (1986):
Na segunda metade do
século XIX, os meninos passam a ser heróis e com isso a ação aproxima-se do
leitor mirim tanto pela ótica que deve focalizar a problemática da infância,
como pelo fato de as narrativas serem historicamente mais identificáveis.
A criança ao se ver
simbolizada no mundo ficcional, pode estabelecer o confronto entre a sua
vivência (a partir do herói) e a vivência dos adultos, situação que revoluciona
a concepção do genêro (KHÉDE, 1986, p.40).
A partir do século XIX as crianças
começam a se identificar com as histórias. Deste modo eles se imaginam no papel
do herói, vivenciando a história. Neste momento o herói passa a ter o papel de
influenciador no comportamento das crianças. Os elementos mágicos além de
seduzirem o leitor, começam a incentivar a criança a desenvolver a imaginação.
Todos esses contos orais que
percorreram gerações começam a ser copilados por escritores que se interessavam
por essas histórias. Esses contos copilados foram transformados em textos
escritos, para que principalmente, não se perdessem na memória das pessoas ao
longo dos tempos.
* Esse é um post com partes da minha monografia (trabalho de conclusão de curso) sobre contos de fadas. Para ver os outros é só acessar a tag Era uma vez (aqui).
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