Existem livros que nos provocam um certo desconforto, porque percebemos que algumas situações apresentadas na ficção talvez não estejam tão distantes da nossa realidade. Foi um pouco dessa sensação que encontrei em Tobacco City, de Ricardo Novaes.
A história nasceu de uma pergunta bastante interessante: e se todo mundo acreditasse que os fins justificam os meios? E se a ética deixasse de fazer parte das decisões profissionais e a única métrica de sucesso fosse alcançar os próprios objetivos, independentemente do preço?
É a partir dessa provocação que Ricardo constrói uma distopia corporativa na qual a ambição sem limites se transforma em regra e a ética sobrevive muito mais como discurso do que como prática.
E, olha, o resultado é um universo que consegue prender a atenção e, ao mesmo tempo, despertar algumas reflexões bastante incômodas.
Na torre espelhada de Tobacco City, emoções são tratadas como ativos que podem ser analisados, medidos e auditados. Nesse ambiente, conhecemos Matheus Reis, um profissional ambicioso, metódico e extremamente competente, que recebe uma missão bastante peculiar: lançar o XCITE, um cigarro bioengenheirado capaz de simular as sensações químicas do amor e o êxtase do clímax sexual.
Mas desenvolver um produto tão extraordinário exige matéria-prima. E é aí que a história começa a mostrar suas camadas mais perturbadoras.
Para alcançar os resultados desejados, Matheus precisa trabalhar com a chamada biomassa, formada por pessoas vulneráveis que vivem nas favelas do lado de fora dos portões da empresa. Elas são utilizadas nos experimentos e passam a ser tratadas muito mais como instrumentos de pesquisa do que como seres humanos.
E uma grande questão que aparece é: até onde alguém consegue chegar sem perder um pouco de si pelo caminho?
Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção em Tobacco City foi a escrita de Ricardo Novaes.
É uma narrativa muito envolvente e sensorial. A gente não apenas visualiza os ambientes e as situações, mas consegue imaginar os cheiros, as texturas e as sensações descritas pelo autor. Em vários momentos, tive a impressão de estar dentro daquele universo, acompanhando de perto o que estava acontecendo.
Só tenho uma coisa que me incomodou: A fonte escolhida. Na verdade, não sei se foi o tipo da fonte ou o tamanho, mas achei ruinzinha de ler com tanta fluidez. Pra quem usa oculos, letra grande é melhor hehehehe.
Outro ponto interessante é o contraste entre os diferentes ambientes apresentados na história. De um lado, o luxo frio dos andares superiores, os escritórios e as relações corporativas. Do outro, os espaços mais simples, como o bar do Ribas, com seus cheiros e características tão particulares.
São descrições que ajudam a compreender que estamos diante de dois mundos muito diferentes, embora façam parte da mesma engrenagem.
Também gostei de perceber como a escrita conversa com a personalidade de Matheus. A objetividade, as frases curtas e a descrição metódica das ações parecem acompanhar a maneira como o próprio personagem enxerga o mundo. É como se a construção da narrativa também nos ajudasse a compreender quem ele é.
Vale a leitura?
Se você gosta de histórias que fogem um pouco do convencional, que apresentam personagens moralmente complexos e que provocam reflexões sobre a sociedade, o poder e as relações humanas, acredito que vale a pena conhecer Tobacco City.
É uma leitura que combina uma escrita envolvente com um universo bastante particular, uma atmosfera que nos coloca dentro da narrativa e um protagonista que certamente vai despertar opiniões diversas.
Para mim, um dos maiores méritos do livro está justamente em não entregar respostas tão simples. Matheus nos faz questionar até que ponto somos resultado do ambiente em que estamos inseridos e até que ponto somos responsáveis pelas escolhas que fazemos.
E talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que acontece quando alguém chega ao topo, mas o que essa pessoa precisou deixar pelo caminho para conseguir chegar lá.
Tobacco City, de Ricardo Novaes, é uma leitura que vale pela experiência, pelas provocações e, principalmente, pelas conversas que continua despertando depois que a leitura termina.


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