A Jornada de Cura da Sua Criança Interior, de Robert Jackman: olhando para as feridas que ainda vivem em nós

21 agosto 2026


Às vezes, uma situação aparentemente pequena desperta uma reação desproporcional. Uma crítica incomoda mais do que deveria, um afastamento parece insuportável, dizer “não” provoca culpa ou a necessidade de agradar todo mundo se torna quase automática. Para Robert Jackman, muitas dessas respostas podem estar relacionadas a feridas emocionais que carregamos desde a infância.

É a partir dessa perspectiva que o psicoterapeuta apresenta “A Jornada de Cura da Sua Criança Interior”, um livro que propõe olhar para essas marcas do passado não para permanecer preso a elas, mas para compreendê-las e, aos poucos, recuperar a liberdade emocional.

A proposta do livro parte de uma ideia bastante interessante: experiências vividas na infância podem influenciar a maneira como nos relacionamos conosco, com os outros e com o mundo na vida adulta.

Isso pode aparecer de diferentes formas: escolhas que parecem se repetir, reações impulsivas, dificuldade em estabelecer limites, medo de rejeição, necessidade de aprovação ou padrões de relacionamento que sabemos que não nos fazem bem, mas que continuamos reproduzindo.

Em vez de perguntar apenas “por que eu faço isso?”, o livro nos incentiva a olhar para a nossa própria história e tentar compreender o que existe por trás daquela reação.


Uma das coisas que mais gostei no livro foi a linguagem.


Apesar de abordar questões relacionadas à psicologia e à saúde emocional, Robert Jackman escreve de maneira simples e acessível, sem transformar a leitura em um texto cheio de termos técnicos ou conceitos difíceis.

Isso faz com que o livro seja bastante fluido e fácil de acompanhar.

Outro recurso utilizado pelo autor são os relatos de pacientes. Ao longo dos capítulos, diferentes histórias aparecem para ilustrar os conceitos apresentados e mostrar como determinadas feridas podem se manifestar na vida cotidiana.

Esses relatos ajudam a transformar conceitos abstratos em situações que conseguimos reconhecer com mais facilidade.

E talvez esse seja um dos pontos fortes do livro: em alguns momentos, enquanto você acompanha a história de outra pessoa, pode acabar pensando em alguma situação da sua própria vida.


Se existe uma característica que diferencia bastante essa obra de uma leitura puramente teórica, é a quantidade de atividades propostas. Praticamente durante todo o livro existem exercícios para que o leitor pare, reflita e olhe para dentro.

A ideia é identificar as próprias feridas, perceber os gatilhos, reconhecer padrões e compreender como determinadas experiências continuam influenciando comportamentos no presente.

Por isso, não considero este um livro para ser lido com muita pressa.

É possível passar pelas páginas rapidamente, mas acredito que a proposta funcione melhor quando damos tempo para realizar os exercícios e realmente refletir sobre as perguntas apresentadas.

Em alguns momentos, a leitura deixa de ser apenas sobre o que Robert Jackman está ensinando e passa a ser sobre aquilo que você está descobrindo a respeito de si mesmo.


O processo CURAR-SE e o adulto responsável


Entre os conceitos apresentados na obra está o processo CURAR-SE, desenvolvido por Jackman como uma maneira de trabalhar essas feridas e construir uma relação mais consciente com elas.

A proposta passa por reconhecer aquilo que aconteceu, compreender as próprias respostas emocionais e desenvolver recursos para lidar com elas de uma maneira diferente.

Nesse caminho aparece também a ideia do “eu adulto responsável”.

É um conceito interessante porque coloca o leitor diante de uma possibilidade: talvez não possamos mudar aquilo que aconteceu conosco, mas podemos trabalhar a maneira como nos relacionamos hoje com essas experiências.


O adulto que somos pode aprender a estabelecer limites, reconhecer gatilhos, questionar pensamentos negativos e tomar decisões diferentes daquelas que eram possíveis quando éramos crianças.

Algumas experiências fazem parte da nossa história e deixam marcas. O objetivo é aprender a reconhecê-las para que elas não continuem comandando nossas escolhas de maneira inconsciente.

E talvez essa seja uma das reflexões mais importantes que a leitura proporciona: não precisamos apagar o passado para construir um presente diferente.

Podemos conhecer nossas feridas, entender como elas aparecem e desenvolver novas formas de responder ao que acontece conosco.


Uma leitura para quem está disposto a olhar para dentro


“A Jornada de Cura da Sua Criança Interior” é um livro que pode interessar principalmente a quem gosta de psicologia prática, autocuidado e desenvolvimento pessoal, mas também a quem está vivendo um momento de reflexão sobre os próprios comportamentos e relacionamentos.

Não é uma leitura que promete resolver tudo magicamente — e acho importante enxergá-la dessa maneira.

O que ela oferece são reflexões, histórias e ferramentas para que o próprio leitor comece a investigar a sua trajetória.


Para mim, um dos pontos mais interessantes foi justamente essa combinação entre uma escrita simples, relatos que ajudam a compreender os conceitos e exercícios que transformam a leitura em uma experiência mais participativa.

É um livro que, em vez de apenas dizer “entenda suas feridas”, coloca você diante de perguntas para descobrir quais são as suas.

E talvez algumas respostas sejam bastante confortáveis. Outras, nem tanto.

Mas olhar para elas pode ser o primeiro passo para perceber que certas histórias do passado não precisam continuar escrevendo sozinhas os capítulos da nossa vida adulta.





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