Existem acontecimentos que parecem ordinários, mas são linhas fundamentais no bordado da existência de cada um. No livro Velatempo: Atento aos Sinais, o escritor César Ribeiro de Lima demonstra como a vida não é desenhada na superfície do previsível, mas sim no avesso do que é considerado acaso. Silêncios que carregam verdades, sonhos que revelam segredos e encontros que apontam caminhos são manifestações constantes. É necessário apenas atenção para que possam ser reconhecidas.
A obra é ambientada na cidade fictícia de Anhangá, cujo nome remete a um espírito guardião da mata e onde o tempo não corre em linha reta. É o lar da benzedeira Donana, detentora de saberes ancestrais e dona do dom da cura com ervas, chás e rezas. O lugar também é berço da saxofonista e flautista Clarisse, jovem carismática que transforma a dor de relacionamentos tóxicos em arte. A musicista espalha bilhetes anônimos para compartilhar mensagens de acolhimento aos demais habitantes.
Já Helena precisa encarar a vulnerabilidade depois do diagnóstico de uma doença autoimune e aprender, ao lado do marido Roberto, um geofísico paulistano, a lidar com os contratempos. Narrativas como essas guiam a produção literária com a proposta de refletir sobre o sentido da vida em meio ao caos, a partir de personagens que discutem sobre amor, perdão, resiliência, coragem e transformação.
Talvez o amor fosse isso. Uma estrutura delicada entre forças opostas. Não rígida, mas capaz de absorver impactos sem ruir. Foi assim que se encontraram. Nas profundezas e nas alturas. No invisível que sustenta (Velatempo: Atento aos Sinais, p. 43)
César Ribeiro de Lima cria um romance que transita entre o cotidiano e o extraordinário. A linguagem poética da escrita dialoga com as memórias das avós do autor e remete ao realismo mágico de nomes como Socorro Acioli. "Acredito que a vida é muito maior do que os fatos que conseguimos explicar. Queria compartilhar com outras pessoas a mesma pergunta que me acompanha há anos: será que o acaso existe mesmo?", questiona o autor.
Velatempo: Atento aos Sinais não oferece respostas, mas propõe novas perspectivas. O livro contraria a pressa dos tempos atuais e convida a tornar a sensibilidade um guia. Ao longo das 298 páginas, a obra mostra que existem significados nos fios invisíveis da desordem e busca ampliar a interpretação dos mistérios. Afinal, o destino é construído no entrelaçamento.
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